Os Donos da Terra
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  • 1 INTRODUÇÃO
  • 2 OS AMERÍNDIOS
  • 2.1 ANTIGAS HIPÓTESES
  • 2.2 HIPÓTESES MAIS RECENTES
  • 3 OS ÍNDIOS DO BRASIL NOS PRIMEIROS SÉCULOS
  • 3.1 BENS MATERIAIS
  • 3.2 A NUDEZ
  • 3.3 POVO-CRIANÇA
  • 3.4 O TRABALHO
  • 3.5 A CATEQUIZAÇÃO
  • 3.6 A ESCRAVIZAÇÃO
  • 4  OS ÍNDIOS DO BRASIL NO SÉCULO XX
  • 4.1 DIVERSIDADE FÍSICA
  • 4.2 DIVERSIDADE LINGUÍSTICA
  • 4.3 DIVERSIDADE CULTURAL
  • 5 SUBSISTENCIA
  • 5.1 CAÇA
  • 5.2 PESCA
  • 5.3 COLETA
  • 5.4 AGRICULTURA
  • 5.5 CRIAÇÃO DE ANIMAIS
  • 5.6 ARTESANATO
  • 5.6.1 Decadência
  • 5.7 MEDICINA
  • 6  ÍNDIOS ISOLADOS
  • 7 QUANTOS SÃO E ONDE  ESTÃO OS ÍNDIOS HOJE
  • 8 A POLÍTICA INDIGENISTA OFICIAL
  • 8.1 A CONSTITUIÇÃO DE 1988
  • 9 A REALIDADE
  • 10 CONCLUSÃO
  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • 1 INTRODUÇÃO
        Neste trabalho, procurou-se obter uma visão geral a respeito das culturas, bem como da distribuição geográfica, dos diferentes povos indígenas, que habitam a América, particularmente o Brasil.
        Através de consultas à várias fontes,   procurou-se traçar um paralelo entre a situação dos povos que habitavam esta terra à época do descobrimento e, as condições em que se encontram atualmente.
        Na atualidade, muito se fala, em termos de leis, decretos, e projetos, por parte do governo federal, destinados a proteger as comunidades indígenas. Na prática, muito pouca coisa tem sido feita. Na Região Norte do país, é comum o assassinato de líderes indígenas, por pistoleiros, a mando de grandes latifundiários  da região e, apesar de, executantes, e mandantes, na maioria dos casos, terem sido identificados, continuam gozando liberdade
        Nas páginas a seguir, teremos uma idéia geral da violência física, e cultural, a que foram, e continuam sendo submetidos,  os verdadeiros donos da terra.
    A sociedade dita "civilizada", não dispensa o tratamento devido aos povos indígenas, causando grandes transtornos ao povo que foi um dia, o dono desta terra chamada Brasil.
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    2 OS AMERÍNDIOS
        A origem dos índios americanos ou Ameríndios, à época da descoberta da América, é muito duvidosa. A presença de seres humanos no continente recém-descoberto, representava um desafio para os europeus, que tentavam enquadrá-los na sua forma tradicional de explicar o mundo. Se fosse comprovada a sua origem independente de contato com o Velho Mundo, isso excluiria os indígenas,  dos descendentes de Adão, única explicação dos europeus para a origem dos homens, o que os colocaria na categoria de não-humanos.
        Em conseqüência, os índios estariam sujeitos à toda  sorte de explorações, das quais não escaparam, nem mesmo depois de declarados homens através de uma bula do Papa Paulo III, em 1537.
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    2.1 ANTIGAS HIPÓTESES
        Muitas hipóteses tem sido levantadas na tentativa de encontrar uma resposta definitiva sobre a origem dos índios americanos. Algumas, incluem os índios entre os descendentes de Judeus, Fenícios, Cananeus e Mongóis, entre outros povos do Velho Mundo. Outra hipótese atribui à Atlântida (imensa ilha que teria existido ao longo da costa da Europa e norte da África, a oeste do estreito de Gibraltar), a facilidade da passagem do Velho Mundo, para o continente americano. Essas hipóteses foram descartadas a partir da constatação, por geólogos e paleontólogos, de que os continentes e mares, já apresentavam a atual configuração por ocasião do surgimento do homem na terra.
         Segundo a tese do paleontólogo argentino, Ameghino, a humanidade seria originária da região meridional da América do Sul, mais precisamente da Argentina, onde teria surgido o Tetraprothomo, o primeiro ser adaptado à posição vertical. Por evolução progressiva, dele surgiram o Triprothomo, o Diprothomo e o Prothomo, antecessor imediato do homem de hoje. Esta hipótese foi derrubada, principalmente, pelo fato de terem sido apontados como pertencentes a um Tetraprothomo, uma vértebra humana e um fêmur de animal.
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    2.2 HIPÓTESES MAIS RECENTES
        A questão da origem dos ameríndios, atualmente é objeto de pesquisas de físicos, arqueólogos e etnólogos, cujos trabalhos se complementam. Os estudos começam pela análise de antigos esqueletos, passam pela disposição geográfica desses achados, e estudos apurados que permitem estabelecer o seu tempo de existência. Os profissionais envolvidos nesse trabalho valem-se dos conhecimentos de outros, entre eles geólogos e paleontólogos - especialistas em animais fósseis, entre os quais figura o homem.
        Além de estudar os restos ósseos dos antigos habitantes da América, os antropólogos comparam  as características biológicas herdadas pelos ameríndios, com as dos habitantes de outras partes do mundo, valendo-se de geneticistas, que dispõem de informações sobre a distribuição dos fatores sangüíneos ABO, MN, RH etc, nas diversas populações do globo.
        O arqueólogo estuda os objetos fabricados pelas sociedades já desaparecidas. O  etnólogo, por sua vez,  estuda a distribuição de objetos fabricados pelas sociedades s atuais, ou seus costumes, comparando-os com aqueles mantidos por povos de outras partes do mundo. Nesse trabalho ele pode contar com a colaboração do lingüista, que dispõe de técnicas que apontam as línguas de mesma origem, o que leva à hipótese de uma possível origem comum para os povos que as falam.
        Os estudos sobre o povoamento da América visam conhecer o ponto ou pontos por onde os primitivos habitantes penetraram no continente, o lugar de onde vieram, e as direções que tomou o povoamento do Novo Mundo. Alguns acentuam as características comuns a todos os índios americanos, razão pela qual procuram uma origem única para eles. Para Hrdlicka, os índios descendem das populações da Ásia Oriental, cujos representantes teriam chegado à América através do Estreito de Bering. Com uma concepção inteiramente oposta, Imbelloni atribui o povoamento da América à imigração de sete tipos humanos distintos: tasmanóide, australóide, melanesóide, indonésio, proto-indonésio, mongolóide e esquimó.
        O etnologista, Paul Rivet  considera que o povoamento da América deve-se a elementos asiáticos, que entraram pelo Estreito de Bering; assim como a melanésios, e australianos, que chegaram à América pela Terra do Fogo, passando pelas ilhas existentes entre a Austrália e a Antártida e, entre esta e a América. Ele faz ligações, ainda, entre a América e a Polinésia.
        Embora hajam muitas divergências a respeito do assunto, a maioria dos estudiosos considera que o homem não surgiu da América, veio de fora, sendo sua presença mais recente no Novo Mundo. Eles atribuem a elementos asiáticos vindos através do Estreito de Bering, a migração mais importante para o povoamento da América, e consideram que os primeiros humanos, chegaram à América a 40 mil anos passados, provavelmente durante a última glaciação. Esses primeiros migrantes estariam no nível cultural de caçadores-coletores, não possuindo conhecimentos e técnicas de agricultura. De acordo com esses pesquisadores, os esquimós, que se estabeleceram na região setentrional do continente americano, seriam os últimos grupos migratórios.
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    3 OS ÍNDIOS DO BRASIL NOS PRIMEIROS SÉCULOS
        Passada a primeira impressão de semelhança geral, causada talvez, pela nudez, as diferenças culturais entre os índios se tornaram logo visíveis aos europeus, logo que estes aqui chegaram. Logo constataram a existência de grande diversidade de nações e línguas entre os nativos, tanto do litoral, quanto do sertão. Cumpre salientar que, embora houvesse essa diversidade, havia uma língua principal ou "geral",  de base tupi, compreendida pela maioria dos índios e de aprendizado fácil para os portugueses. Essa língua foi, inclusive, codificada em gramática pelos jesuítas, e tornou-se o meio de comunicação mais usado, por tribos de diversas culturas, pelos mestiços e, especialmente em São Paulo, onde chegou a ser mais falada que o português.
        Dentre as nações que falavam o tupi, distinguiam-se as seguintes:
    · potiguares - habitavam a Paraíba, área do melhor pau-brasil da colônia. Amigos dos franceses, resistiram tenazmente à ocupação portuguesa, que só começou na última década do século XVI;
    · viatãs - os portugueses provocaram guerras entre esta nação, e os potiguares, logo após, durante uma crise de fome que se abateu sobre os viatãs, estes foram capturados e vendidos como escravos em Pernambuco e outras capitanias;
    · tupinambás - habitavam áreas próximas à atual cidade de Ilhéus, BA. Inicialmente bastante hostis aos portugueses, foram apaziguados, mas voltaram a se revoltar contra os maus-tratos sofridos. Foram dizimados pela escravidão, epidemias, fome, e guerras.
    · caetés - viviam próximo ao rio S. Francisco. Uma parte deles foi contatada e aldeada pelos jesuítas, a outra foi responsável pela captura, morte, e canibalismo dos passageiros e tripulantes do navio que levava o bispo D. Pero Fernandes Sardinha. O governador proclamou a "guerra justa", contra eles, isto foi usado como pretexto pelos colonos para escravizar os caetés pacíficos, apesar dos protestos dos jesuítas;
    ·  tupiniquins  - de Ilhéus e Porto Seguro, até o Espírito Santo. Inimigos dos tupinambás, de início tiveram boas relações com os portugueses, depois, diante da violência sofrida, revelaram-se, mas foram vencidos e passaram a aceitar os aldeamentos, a catequese e o trabalho para os colonos. Sua extinção nos fins do século XVI, abriu caminho à entrada dos aimorés, goitacazes (ou botocudos), que resistiram tenazmente à colonização portuguesa até o século XIX;
    ·  tupiguares - viviam no interior, numa faixa que ia de S. Vicente ao Nordeste. Devido à intensa caça para a escravização, fugiram para longe do litoral;
    ·  temiminós - no Rio de Janeiro e  Espírito Santo. Tangidos pelos tamoios, seus inimigos, aliaram-se aos portugueses, na luta contra os franceses (1555-1565). Apesar de aliados militares dos portugueses, suas terras foram sendo progressivamente tomadas pelos colonos, e os últimos remanescentes viviam em grande miséria no século XIX;
    ·  tamoios - ocupavam a região compreendida entre Rio de Janeiro e Ubatuba. Eram grandes guerreiros, aliados aos franceses durante dez anos (1555-1565), ameaçara o povoamento português nas capitanias do sul. Após diversas ações militares dos governadores gerais, com reforço do Espírito Santo, e S. Vicente, e alianças com os temiminós, os portugueses lograram derrotá-los. Os que restaram fugiram para a Serra do Mar ou mais longe ainda;
    ·  carijós - mais tarde conhecidos como guaranis, ocupavam uma vasta região que se estendia ao sul, desde São Vicente, até o Paraguai, e estuário do Prata. Embora tenham resistido aos portugueses com guerras e ataques em que morreram até missionários jesuítas, foram muito elogiados por estes, porque não comiam carne humana, não eram obcecados pela guerra, e já estavam sedentarizados.
        O padre Manuel da Nóbrega, lutou por mais de 20 anos, no sentido de convencer seus superiores da importância da catequese dos guaranis. Os superiores da companhia de Jesus, não deram essa permissão, optaram por concentrar seus esforços junto aos índios do litoral, devido ao pequeno número de padres com que contavam, que seria insuficiente para a gigantesca missão da catequese e assistência espiritual do povo guarani. As autoridades metropolitanas, proibiram a penetração dos jesuítas portugueses, nas terras guaranis, por se tratar de território pertencente à Espanha. Essa penetração só se deu à partir de 1610, mas pelos jesuítas espanhóis. Em várias partes dos atuais territórios brasileiro, argentino, e paraguaio, surgiu um grande número de aldeamentos, ou missões jesuíticas, onde se desenvolveu durante algum tempo, a catequese dos guaranis, com a menor interferência possível dos colonos europeus.
        A campanha pombalina para a destruição da Companhia de Jesus, e expulsão dos jesuítas espanhóis, disseminou o mito da criação de um império jesuítico no coração da América do Sul, com a finalidade de desafiar as Coroas espanhola, e portuguesa. Porém, os estudos atuais, em nada fazem supor a existência de planos políticos, e provavelmente a escolha desta região, se deveu justamente devido a presença dos guaranis.
    Os índios aliavam-se ora com portugueses, ora com franceses, mas principalmente com estes últimos. Seriam por acaso, algumas tribos, mais "patriotas" do que outras? A explicação mais provável, é de que as opções foram feitas, em função do tratamento recebido. Os franceses não escravizavam os índios, inicialmente só interessavam-se pelo pau-brasil, praticavam o escambo, pagando com ferramentas e armas de ferro. Os portugueses, ao contrário devido à exploração de caráter mercantilista, tentavam apropriar-se da força de trabalho indígena, através da escravidão.
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    3.1 BENS MATERIAIS
        Entre os índios tudo era partilhado, principalmente os produtos da caça, pesca, e coleta. Apenas as armas e enfeites eram propriedade pessoal. A generosidade dos indígenas era partilhada com todos que estivessem sob seu teto, mesmo os inimigos.
        O desprendimento dos bens materiais que os caracterizava foi muito admirado por Jean de Léry que, a propósito, conta a conversa que teve com um velho tupinambá a respeito dos motivos que moviam os europeus na busca do pau-brasil. Depois de explicar que o mesmo era utilizado para fazer tinta e não para lenha, Léry observa que o velho retrucou imediatamente:
    "e por ventura precisais de muito?
    - Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados.
    - Ah! Retrucou o selvagem [?], tu nos contas maravilhas -, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: - mas esse homem tão rico de que me falas não morre?
    - Sim, disse eu, morre como os outros.
    Os selvagens são grandes discursadores, e costumam  levar qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: - e quando morrem para quem fica o que deixam?
    - Para seus filhos se os têm, - respondi, - na falta deles para os irmãos ou parentes mais próximos.
    - Na verdade, - continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo - agora vejo que vós outros mairs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem. Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados". (MESGRAVIS, 1994, p. 29)
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    3.2 A NUDEZ
        Aos europeus, cuja cultura era carregada de regras sociais e morais, a nudez dos índios causou enorme surpresa, agradável para uns, e chocante para outros. A visão de seres que andavam nus, sem a mais leve noção de culpa, e cujos costumes sexuais eram liberais, gerou a noção de que se encontravam diante uma parcela da humanidade que não teria caído em pecado. "[...] ao sul do Equador não existia pecado e que tudo era lícito tanto do ponto de vista sexual assim como as mais sanguinárias violências." (MESGRAVIS, 1994, p. 30)
        A nudez possibilitava notar-se a perfeição física do povo indígena, entre eles não se viam aleijados, é costume até hoje entre eles, enterra-los vivos, ao nascerem.
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    3.3 POVO-CRIANÇA
        Possivelmente, a delicadeza, a ternura, e a hospitalidade e alegria com que os índios receberam o europeus, quando estes aqui aportaram, tenha gerado a imagem de um povo-criança feliz, o que pode ter originado a idéia de que como "crianças, deveriam submeter-se às orientações, e ditames dos "adultos" europeus, dos quais deveriam aceitar as noções de civilização, fé cristã, e ordens de trabalho, abandonando seus costumes, pois os europeus sabiam o que era melhor para os silvícolas. O padre Manoel da Nóbrega chegou a defini-los como "um papel branco onde se poderia escrever tudo".
    Quando tomaram um maior contato com a cultura indígena, quando estes começaram a  resistir ao que lhes queriam impor, passaram a ser taxados de falsos e hipócritas, por não terem revelado sua verdadeira face logo de início, o que foi a constante justificativa para as violentas agressões à que foram submetidos.
        A falsidade dos europeus era justificada, eles não se obrigavam a levar a sério os costumes, hábitos, e direitos de "crianças, que deveriam submeter-se aos que "sabiam mais".
        Os jesuítas passaram a encorajar o uso de roupas nas igrejas, ou quando iam à cidade, principalmente as mulheres. De resto, não exigiam roupas, pois os índios não as possuíam, e os padres não tinham como fornecê-las.
        Aos colonos, a nudez atenuada dos índios, interessava no sentido de demonstrar sua inferioridade cultural, mesmo quando por vaidade, ou bondade, cobriam-se os escravos com roupas, eles deveriam andar descalços, ou de chinelos, para distinguirem-se dos livres.
        Os índios, principalmente as mulheres, preferiam andar nus, pois isto facilitava os seus banhos diários, a roupa era um costume cultural novo, como costumavam sentar-se ao chão, não em bancos, não tinham o hábito de cobrir o colo, como precaução contra a sujeira, não conheciam o  sabão,  para lavar as roupas,  tornavam-se um verdadeiro depósito de germes que causavam toda a sorte de infecções.
        Devido ao clima tropical, tornou-se um hábito saudável, aos brasileiros, o vestir pouca roupa, principalmente na intimidade, e fora das vistas de estranhos, onde não podia ser visto ou criticado pelos "donos da verdade civilizada".
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    3.4 O TRABALHO
        As tarefas eram divididas, o trabalho das mulheres era diário e constante (plantar, preparar alimentos, tecer, fiar, cerâmica, coleta de frutos e raízes, etc.), o dos homens, embora pesado (construção de canoas, limpeza do terreno para a lavoura, etc.), era mais espaçado, o que causava a impressão de que estes eram mais indolentes e preguiçosos, apenas faziam questão de trabalhar quando e como quisessem.
        Cumpre ressaltar que apesar da descrição depreciativa dos índios, os cronistas dos séculos XVI e XVII, nunca os consideraram indolentes ou preguiçosos, esta imagem incorporada à historiografia oficial, foi elaborada no século XIX, quando os escravistas queriam justificar aos abolicionistas, a escolha do negro para o trabalho escravo.
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    3.5 A CATEQUIZAÇÃO
        Uma das principais dificuldades enfrentadas pelos catequizadores dos índios, era o hábito destes, de mudarem freqüentemente, o lugar de suas aldeias.  Quando escasseavam os recursos, tais como caça, coleta, e cansava-se o solo, mudavam-se para outro local, isto ocorria mais ou menos a cada três, ou quatro anos, quando os jesuítas voltavam às aldeias, elas estavam vazias, e seus habitantes tinham ido para longe. Esse nomadismo, também não interessava aos colonos, que perdiam o acesso fácil à mão-de-obra.
        Uma das primeiras medidas dos jesuítas, foi implantar os aldeamentos permanentes, o que era conseguido, através da conquista das crianças índias, que lhes serviam de intérpretes juntos aos pais. Também recorriam aos poderes coercitivos dos governadores.
        O padre Manoel da Nóbrega, ambicionava catequizar os carijós, ou guaranis, que habitavam a vasta região que se estendia de São Vicente, até o rio da Prata. Esse povo era sedentário, tinha conhecimento da agricultura, não eram obcecados por guerras, e não eram antropófagos.
        Nóbrega nunca conseguiu seu intento, devido às terras dos guaranis encontrarem-se em território pertencente à Espanha. No século XVII, os jesuítas espanhóis conseguiram realizar esta façanha. Foram fundadas várias missões, entre as quais destacam-se as de Tape (Rio Grande do Sul), Guairá (Paraná), e Itatum (Mato Grosso), estas reduções foram destruídas pelos bandeirantes paulistas,  na captura de escravos. Melhor sucesso em termos de organização, e duração, tiveram as missões do Paraguai, Argentina, e os Sete Povos das Missões, no rio Grande do Sul. Nesses aldeamentos, mais afastados dos brancos, os jesuítas lograram desenvolver um ótimo trabalho de catequese, e criaram uma sociedade utópica, que até hoje encanta os estudiosos do assunto.
        A catequização dos índios foi fator fundamental para o povoamento e a exploração da colônia, foi uma medida vitoriosa, se a analisarmos do ponto de vista do conquistador europeu, por outro lado, se a considerarmos do ponto de vista do índio, foi um desastre, uma das maiores violências culturais cometidas na história da humanidade, talvez até mesmo  mais violenta do que as agressões físicas, captura, e servidão a que eram submetidos
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    3.6 A ESCRAVIZAÇÃO
        Os colonos viam os índios apenas como mão-de-obra a ser explorada, e suas mulheres como objeto sexual. "Esse hábito, o da poligamia e a liberdade sexual das moças, não eram censurados pelos colonos, que os encorajavam e adotavam." ." (MESGRAVIS, 1994, p. 43).
        Usando de agrados, e ardis, os colonos iludiam os índios, capturavam-nos para o trabalho escravo, e às mulheres para concubinas, isto irritava os selvagens, que revidavam, atacando os brancos, o que gerava um contra ataque, que culminava muitas vezes, com o extermínio, e a captura de tribos inteiras. Enquanto os índios eram em maior número, normalmente os capturados, exterminados, e devorados, eram os brancos, quando estes últimos obtiveram supremacia numérica, a situação se inverteu. Os colonos, também costumavam incentivar as guerras entre as tribos, com vistas à dizimação, e à obtenção de escravos por meio do resgate de prisioneiros.
        Além das guerras e apresamentos, a fome por motivos climáticos, a destruição e o saque das colheitas pelos brancos, e as epidemias de doenças trazidas por estes, contribuíram para um aniquilamento mais rápido das populações indígenas. Durante os primeiros vinte anos de contato, estima-se que morreram aproximadamente oitenta mil índios, somente na Bahia. Possivelmente durante o século XVI, esse número chegue a meio milhão, em todo o Brasil.
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    4 OS ÍNDIOS DO BRASIL NO SÉCULO XX
        Atualmente, vivem no Brasil mais de 200 sociedades indígenas, com culturas, língua, religião e organização distintas entre si. Trata-se de um dos maiores acervos culturais do mundo atual, o que atrai ao país centenas de estudiosos e especialistas, principalmente lingüistas e antropólogos. Apesar de sua extrema importância, este acervo vive sob constantes ameaças, tendo como causas principais os conflitos agrários e o avanço dos "não índios" sobre as terras indígenas.
        A Constituição Federal de 1988, estabelece como direito inalienável dos povos indígenas a possessão da terra que ocupam, mas, devido a vastidão do território brasileiro e a escassez de recursos, a agencia governamental encarregada de defender e de garantir os interesses e os direitos indígenas, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) tem dificuldades para fazer cumprir a legislação, no sentido de garantir uma atenção adequada de saúde e educação e implantar os projetos de atividades produtivas.
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    4.1 DIVERSIDADE FÍSICA
        Os índios brasileiros são diferentes entre si, e também da maioria da população nacional. Totalizam cerca de 220 sociedades indígenas, que falam 170 idiomas distintos. Cada grupo caracteriza-se por usos, costumes e culturas próprios, habilidades, organização social, crenças, filosofia e estética peculiares. Também não
    constituem um todo homogêneo. As diferenças físicas podem ser bem expressivas, mesmo entre os integrantes de uma mesma comunidade, em decorrência do hábito de acasalamento entre diferentes etnias.
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    4.2 DIVERSIDADE LINGUÍSTICA
        Muitos acreditam que o tupi é a língua falada pelos índios brasileiros. Essa idéia equivocada surgiu com a chegada dos conquistadores portugueses ao Brasil, onde encontraram o litoral habitado por índios que, em sua maioria, falavam a língua Tupi. Aliás, essa foi a primeira língua nativa que os missionários aprenderam no Brasil. Nas crônicas da época predominavam, também, as informações sobre os índios Tupi. Daí a idéia falsa, de que essa é a língua falada por todos os índios brasileiros.
        É surpreendente a variedade e riqueza das línguas faladas pelos índios do Brasil. A primeira classificação dividia as línguas indígenas em Tupi e Tapuya e vigorou até o século passado, quando Von Martius demonstrou que as línguas Tapuya não formavam um conjunto homogêneo. Hoje as línguas indígenas classificam-se em dois troncos: o Tupi, com sete famílias lingüísticas e que envolve o Tupi-Guarani e o Macro-Jê, composta de cinco famílias entre elas o Jê. Existem, ainda, outros grupos não incluídos nestes troncos: o Aruák, o Karíb e o Arawá, as três maiores. Além dessas o Guaikurú, Nambikwára, Txapakúpa, Páno, Múra, Katukina, Tukáno, Makú e Yanomami, nove famílias menores, e cerca de dez línguas isoladas, com características únicas, que não se enquadram nas classificações de troncos e famílias existentes. Um exemplo, é a língua Tikúna, falada por 28.000 índios no Estado do Amazonas.
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    4.3 DIVERSIDADE CULTURAL
        Os estudos etnológicos dividem os índios em áreas culturais, (regiões que apresentam homogeneidade sobre certos costumes e artefatos que as caracterizam), a saber, em número de onze: Norte-Amazônica, Juruá-Purus; Guaporé; Tapajós-Madeira; Alto-Xingu; Tocantis-Xingu; Pindaré-Gurupi; Paraguai; Paraná; Tietê-Uruguai e Nordeste. Essa classificação refere-se apenas às sociedades indígenas brasileiras do século XX, não incluindo os Tupinambá, os Kaeté e os Goitaká, grupos exterminados antes do começo deste século. Nessas áreas vivem os seguintes grupos indígenas:
     
    Áreas Culturais  Sociedades Indígenas
    Norte-Amazônica  Arikyana, Apalay, Makuxi, TaulipaWng, Waiãpi, Aiwai, Kulina, Waiká, Tukano, Baniwa, Maku e Kobewa.
    Juruá-Purus  Apurinã, Paumari, Yamamadi, Kaxinawá, Katukina e Yaminawá
    Guaporé Txapakura, Tupari e Nambikwára
    Tapajós-Madeira  Munduruku, Mawé, Kayabi, Kawahib e Arara
    Alto-Xingu  Kalapálo, Bakairi, Kamayurá, Suyá, Txikão, Waurá, Kreen-Akarôre
    Tocantins-Xingu  Bororo, Karajá, Parakanã, Kayapó, Canela, Krahô, Xerente e Assurini
    Pindaré-Gurupi  Tembé, Urubu-Kaapor, Guajajara, Guajá
    Paraguai  Terena e Kadiwéu
    Paraná  Nandeva, Guarani, Kaiowá
    Tietê-Uruguai  Kaingang, Xetá, Xokleng
    Nordeste  Fulniô, Potiguára, Maxakali, Kariri, Atikum, Tremembé, Xokó e Pankararu
           A cultura material dos povos indígenas expressa aos outros setores da sociedade sua visão do universo e, quase sempre, cumpre uma função utilitária no cotidiano da comunidade tribal. Mas esta visão está sendo influenciada  pelas mais variadas formas de pressão a que estão submetidos os povos indígenas brasileiros, cujas terras são ambicionadas pelos regionais, em virtude das riquezas da flora, fauna e do subsolo.
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    5 SUBSISTENCIA
        Os índios exploram os recursos naturais de suas terras, num relacionamento harmonioso entre  homem e  meio ambiente. Na luta pela sobrevivência eles caçam, pescam, plantam, coletam e criam animais. Fabricam armas de caça, armadilhas, canoas, potes e cestos, que utilizam para produzir, transportar, guardar ou conservar os alimentos. Até hoje esse trabalho garante a sobrevivência dos índios do Brasil.
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    5.1 CAÇA
        Atividade tipicamente masculina em todas as Sociedades Indígenas, a caçada, em grupo ou individual, é considerada um trabalho. As técnicas utilizadas variam de acordo com os Grupos Indígenas e com o animal a ser caçado.
        Os indígenas são hábeis caçadores,  conhecem os hábitos de suas presas, tanto as de hábitos diurnos, como as de hábitos noturnos, seus esconderijos, e as frutas que apreciam. Porém, nem todas as sociedades indígenas dão a mesma importância à caça. Alguns preferem a pesca, a exemplo dos índios do Alto-Xingu. Em contrapartida, os índios Timbira dão grande valor à carne da caça e organizam caçadas coletivas com freqüência, já os Mawé, preferem caçar individualmente.
        O contato com o mundo civilizado interferiu nas técnicas utilizadas pelos índios para caçar. A introdução das armas de fogo e do cão, tornaram as caçadas mais eficazes, não só à procura da carne para comer, mas do couro e das penas, produtos que podem ser utilizados na confecção de vestuário e artesanatos.
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    5.2 PESCA
         Sua importância entre os índios também varia de grupo para grupo. São inúmeras as técnicas utilizadas para pescar, merecendo destaque o uso de vegetais que têm a propriedade de matar ou atordoar os peixes, como o Timbó ou o Tingui. A pesca com vegetais é sempre feita em conjunto. Os índios pescam, ainda, com as mãos, ou abatem os peixes com flechas de ponta de osso,  ou a golpes de facão. Na pesca também podem ser utilizadas armadilhas, feitas com cestos cilíndricos, esteiras de talos em forma de cerca ou cercado de varetas, além de jiraus, construídos junto a pequenas quedas d'água. Hoje é comum o uso de anzóis de metal, técnica adotada depois do contato com os civilizados.
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    5.3 COLETA
        A prática da coleta é comum entre os Grupos Indígenas que não conhecem a agricultura, para os quais essa atividade torna-se a única maneira de encontrar alimento vegetal. Assim, os índios procuram frutos, caules e raízes vegetais nativos. A coleta, entretanto, não se limita apenas aos vegetais, incluindo a procura de animais minúsculos como larvas, algumas espécies de formigas, gafanhotos, além de mel e ovos de tartaruga, entre outros produtos. Por meio dessa atividade os índios obtêm, ainda, a matéria-prima necessária à confecção de inúmeros produtos como plantas medicinais, canas para o preparo de flechas, fibras para fazer cordas, timbó utilizado na pesca, cera, resinas e cal, para a pintura corporal.
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    5.4 AGRICULTURA
        A maior parte das Sociedades Indígenas do Brasil pratica a agricultura em terras florestais. No período da seca os índios derrubam a mata e limpam o terreno destinado à lavoura. Depois de secos os galhos e troncos caídos são queimados e o terreno está pronto para a semeadura. O plantio é feito nas primeiras chuvas e as plantas crescem misturadas, embora não sejam plantadas na mesma época. É a chamada agricultura de coivara, comum também entre os "civilizados" que vivem no interior.
        Quando o terreno já não produz o necessário para a subsistência, os índios derrubam outros trechos da floresta e assim sucessivamente. Com isso migram cada vez para mais longe. Ao contrário do que muitos pensam, os índios não são predadores e retiram do solo apenas o necessário, só retornando a plantar no local de origem quando a mata volta a se formar naturalmente.
        O uso de facões, machados e enxadas é comum entre a maioria dos grupos indígenas. Antes da introdução dessas ferramentas, os índios usavam machados de pedra para derrubar as árvores e, na semeadura, perfuravam o solo com paus pontudos, chamados "bastão de cavar".
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    5.5 CRIAÇÃO DE ANIMAIS
        Depois do contato com a civilização tornou-se comum, entre diversos grupos indígenas, criar animais domésticos como galinhas, patos, porcos e até bovinos, para o consumo da carne. Mesmo antes, os índios já capturavam filhotes de araras, papagaios, macacos e grande variedade de pássaros, para criá-los como bichos de estimação. O homem civilizado introduziu entre as Sociedades Indígenas o cachorro, hoje indispensável à caça, alterando as técnicas até então utilizadas pelos índios nas caçadas.
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    5.6 ARTESANATO
        Hábeis artesãos,  os índios produzem diversos tipos de artefatos para atender suas necessidades cotidianas, e rituais, que assumem, hoje, o importante papel de gerador de recursos financeiros, beneficiando as Comunidades com uma renda complementar. Confeccionam fantásticos trançados, que tomam a forma de cestos, bolsas e esteiras, moldam a cerâmica, com a qual criam  panelas e esculturas, entalham a madeira da qual nascem armas, instrumentos musicais, máscaras e esculturas, além das plumárias e adornos de materiais diversos como cocos, sementes, unhas, ossos (inclusive humanos, em alguns casos), conchas que, com habilidade e tecnologia, são transformados em verdadeiras obras de arte.
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    5.6.1 Decadência
        A escassez de recursos, ligada a influencia das povoações "não índios" tem repercutido na produção cultural dos povos indígenas brasileiros. Se excluem dessa tendência os indígenas que vivem ainda isolados, sem ter nenhum contato com o chamado mundo civilizado. A Funai calcula que estas sejam aproximadamente 60 comunidades no Amazonas.
        A influencia dos regionais sobre os povos indígenas pode ser constatada nas peças artesanais. Nos últimos anos, os técnicos da Funai verificaram uma diminuição na qualidade das artesanatos indígenas. Este processo coincide com o avanço dos "não índios" sobre seus territórios, o que provoca modificações ambientais e priva os índios da matéria prima necessária para a produção de sua arte. Ademais, os poucos investimentos nas áreas de educação, saúde e atividades produtivas, deixou as sociedades indígenas mais suscetíveis às influencias dos regionais, e dependentes dos benefícios do Estado.
        A necessidade de sobreviver em  condições adversas obrigou a maioria dos indios, aldeados próximo à núcleos de "civilização", a produzirem intensamente seus artesanatos, para finalidade comercial, sem obter a qualidade tradicional.
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    5.7 MEDICINA
        O tratamento e a cura de doenças, entre os indígenas, geralmente é feita pelos médicos-pajés, através de práticas-mágicas. Os poderes dos pajés podem ser usados tanto para  curar, como também para provocar doenças,  razão pela qual é comum atribuir a causa de certas doenças,  a feitiços. Os processos de cura, e de entrar em contato com o sobrenatural variam entre os grupos indígenas. Os Xamãs, por exemplo, são uma categoria especial de médico-pajé, que podem entrar em êxtase. Nesse estado, segundo os índios, a alma vai para longe do corpo, percorrendo lugares distantes ou encarnando um espírito estranho.
        Muitos vegetais utilizados pelos índios como medicamentos, apresentam resultados surpreendentes, o que vem motivando a procura dessa matéria-prima por parte de estrangeiros. Os conhecimentos técnicos, muitas vezes complexos, dos índios brasileiros estão presentes tanto no combate às doenças, quanto na caça - (venenos de caça), na pesca - (venenos de pesca), na ecologia, na astronomia, na fabricação de sal, de objetos de borracha, de tecidos e na guerra (uso de gases asfixiantes).
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    6  ÍNDIOS ISOLADOS
        São povos indígenas que, desde a época do descobrimento, ainda conseguem viver isolados do convívio com os "não índios". Lograram manter-se afastados de todas as transformações ocorridas  no país.
        Normalmente habitam  pontos afastados da inóspita Região Amazônica, pouco se sabe sobre essas comunidades, sua língua é desconhecida e, de modo geral não mantém relações nem mesmo com outras comunidades indígenas, de diferentes culturas,  próximas ao seu território.
        Como seus antepassados, sobrevivem da caça, pesca, coleta e, em alguns casos, da agricultura. Com o passar do tempo desenvolveram conhecimentos empíricos e adquiriram técnicas próprias de sobrevivência. Defendem bravamente seu território dos invasores e, quando não mais conseguem faze-lo, retiram-se para locais mais afastados, na esperança de sobreviver. Porém, as chances de sobrevivência desses povos, diminuem cada vez mais, ameaçados que são, pelos conflitos gerados pelo interesse econômico dos invasores, bem como a contaminação por doenças desconhecidas trazidas pelos "não índios". Os garimpeiros que exploram ouro, e outros minerais nas terras indígenas, poluem os rios com mercúrio, além de toda uma gama de doenças infecto contagiosas.
        Em Rondônia, os maiores problemas decorrem dos projetos de colonização de terras, paraenses, gaúchos, mineiros, goianos e capixabas são assentados  em áreas que, cercam cada vez mais os indígenas da região. A formação de grandes propriedades latifundiários que compram a terra beneficiada, formam grandes propriedades, é um
    fato que os índios são obrigados a aceitar, a exemplo dos Nambiquara, que vivem hoje em áreas espaçadas umas das outras, cortadas por fazendas e estradas. Os  posseiros, invadem terras indígenas, sobretudo aquelas ainda não demarcadas, gerando conflitos e impactos que afetam profundamente as Sociedades Indígenas.
        Com  o desaparecimento dessas sociedades, perde-se toda uma cultura, que nem mesmo chegou a ser conhecida. A humanidade fica mais pobre, pois destrói elementos físicos e culturais que poderiam enriquecê-la.
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    7 QUANTOS SÃO E ONDE  ESTÃO OS ÍNDIOS HOJE
     
    Estados  Sociedades Indígenas População
    Acre  Arára, Asheninka, Huniquim,Katukina do Acre, Manitenéri, Maxineri, Poyanáwa, Yaminawá, Yawanáwa, Makuráp, Apurinã, Katukína, Kulina, (Venezuela/Colombia) Amawáka (Peru), Kaxinawá (Peru)  6.610
    Alagoas  Jerinpancó, Karapotó, Kariri-Xocó, Tingui-Botó, Wassú, Xucurú-Karirí  4.917
    Amapá  Galibí Marworno, Karipúna, Palikur, Waiãpi, Galibí (Guiana Francesa) 
    5.095
    Amazonas  Banavá-Jafí, Caixana, Corvana, Dení, Diahói, Himarimã, Hixkaryana, Issé, Jarawára, Juma, Kambéba, Kanamatí, Kanamari, Katawixi, Kokáma, Korubo, Marúbo, Matis, Mayorúna, Miranha, Múra, Múra-Pirahã, Nukuíni, Parintintín, Paumarí, Sateré Mawé, Taríana, Tenharín, Tikúna, Torá, Tshom-Djapá, Tukano, Wamiri, Yamamadí, Yabaána, Zuruahã, , Maku, Warekéna (Venezuela), Karafawyána Sakiribar, Apurinã, Katukína/ Kulina, (Venezuela/Colômbia), Makú (Colômbia), Baníwa (Colômbia/Venezuela), Baré (Venezuela), Katuena, Mawayana, Munduruku, Xeren, Vitotó (Peru), Atroarí, Yanomámi, Waiwai, Kaxarari.
     89.529
    Bahia  Aricobé, Gerén, Kaimbé, Kantaruré, Kirirí, Pankararé, Pankaru, Pataxó, Pataxó ha hã hãe, Xucurú -Kariri, Pankararú, Tuxá.
     8.561
    Ceará  Calabassa, Jenipapo Kanindé, Karirí, Paiaku, Pitaguari, Tapeba, Tabajara, Tremenbé. 4.650
    Espírito Santo Tupiniquim, Guarani M' Biá.
    1.347
    Goiás  Tapuia, Avá- Canoeiro, Karajá
     142
    Maranhão  Canela, Guajá, Guajajára, Kokuiregatejê, Kreye, Krikatí, Urubu -Kaapor, Gavião.
     14.271
     Mato Grosso  Apiaká, Arára do Aripuanã, Arará do Guariba, Awetí, Bakairí, Bororo, Enawenê-Nawê, Irántxe, Kalapálo, Kamayurá, Kuikúro, Matipú, Mehináku, Ofayé, Panará, Paresí, Rikbaktsa, Suyá, Tapirapé, Tapayuna Trumaí, Txikão, Umutína, Waurá, Xavante, Yawalapití, Kadiwéu, Jurúna, Kayabí, Kaypó, Cinta Larga, Zoró, Itogapúk, Nambikwára, Suruí, Karajá.
     17.329
    Mato Grosso do  Sul   Camba, Guató, Kadiwéu, Guarani-Nhandeva, Guarani- Kaiwá, Terena.Kaiwá, Terena  45.259
    Minas Gerais Kaxixó, Krenak, Maxakali, Xakriabá
     6.200
    Pará  Amanayé, Anambé, Apalaí Arára do Pará, Araweté, Asuriní do Trocará, Asuriní do Koatinemo, Kaxuyána, Parakanã, Suruí do Pará, Tiryó, Turiwára,    Warikyána, Wayâna, Xipáya, Zo'é, Tembé, Karafawyána, Katuena, Mawayana, Munduruku, Xeren, Jurúna, Kayabí, Kayapó, Gavião, Waiwai, Karajá, Kuruáya.
     15.715
    Paraíba  Potiguára 
    6.902
    Paraná  Guarani - Nhandeva, Guarani M' Biá, Kaingáng, Xetá. 
    7.921
    Pernambuco  Atikum, Fulniô, Kambiwá, Kapinawá, Truká, Xukurú, Pankararú, Tuxá 
    19.950
    Rio de Janeiro  Guarani-M 'Biá 
    271
    Rio Grande do Sul  Kaingáng 
    13.354
    Rondônia  Aikaná, Ajuru, Akuntsu, Arará, Arikapú, Arikém, Aruá, Awakê, Gavião, Jabutí, Kanoê, Karipúna do Guaporé, Karitiána, Koaia, Mekém, Pakaánova Paumelenho, Tuparí, Uarí, Urueuwauwau, Urubu, Urupá, Cinta-Larga, Zoró, Itogapúk, Nambikwára, Suruí, Sirionó (Bolívia), Kaxarari, Makurap, Sakiribar. 
    5.573
    Roraima  Ingarikó, Makuxí, Mayongóng, Taulipáng, Wapixána, Atroarí, Yanomámi, Waiwai 
    37.025
    Santa  Catarina  Xokléng, Guarani-M' Biá, Kaingáng
    6.667
    São Paulo  Guarani- Nhandeva, Guarani M'Biá, Kaingáng, Terena. 
    1.774
    Sergipe  Xocó 
    230
    Tocantins  Apinayé, Javaé, Krahô, Xambioá, Xerente, Avá Canoeiro, Karajá. 
    6.360
    Total  -----------------------------------------------------------
    275.743
    Dados Populacionais extraídos do censo realizado pela FUNAI em 1995. Fonte: http//www.funai.gov.br/
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    8 A POLÍTICA INDIGENISTA OFICIAL
        A Fundação Nacional do Índio (FUNAI), é uma fundação destinada a lutar pela preservação da identidade, bem como assegurar melhores condições de vida para os cerca de 280 mil índios, de 220 diferentes etnias. A FUNAI, tem cerca de 3.700 funcionários, distribuídos entre a sede e mais 47 Administrações Regionais, em diversos pontos do território brasileiro. A tarefa é árdua, são muitos os problemas a superar. É difícil com a Fundação, provavelmente sem ela, seria impossível. Servidores, e índios defendem a continuidade da FUNAI, na realização deste trabalho, que precisa de muita colaboração e dedicação de todos, índios, e não índios.
        A FUNAI, estabelece e executa a Política Indigenista no Brasil, tentando fazer cumprir o que determina a constituição Federal de 1988. Na prática isto significa promover a prestação de assistência médico-sanitária, educação básica, demarcação e proteção de terras e estimular os estudos sobre os grupos indígenas.
            A FUNAI foi criada pela Lei 5.371, de 05 de dezembro de 1967, em substituição ao Serviço de Proteção aos Índios - SPI. As inovações propostas foram formalizadas na Lei 6.001, de 19.12.73, que criou o Estatuto do Índio. Á época, a mudança representou um avanço significativo no trato da questão indígena, sobretudo, por estabelecer novos referenciais para a definição das terras ocupadas pelos índios e fixar o prazo de cinco anos, que não foi cumprido, para que todas as terras indígenas do País fossem demarcadas.
        A nova política aceitava a diversidade cultural dos índios mas, paralelamente, propunha medidas visando a sua integração à sociedade nacional o que, na
     prática, implicava em negar a existência dessa mesma diferença. A filosofia e a postura em relação aos Povos Indígenas baseavam-se no conceito de que, para evoluir, essas sociedades, a exemplo das demais, percorreriam todos os estágios de desenvolvimento, que iam da selvageria à civilização. Erro! Indicador não definido.
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    8.1 A CONSTITUIÇÃO DE 1988
        A Constituição brasileira de 1988 alterou filosofia e a postura, até então adotadas, em relação aos direitos indígenas. A Carta Magna  os índios como povos culturalmente diferenciados e substitui a concepção vigente de integração dessas Comunidades à sociedade nacional. O novo texto Constitucional reconhece, oficialmente, a diversidade e a especificidade cultural dos índios e o seu direito à preservação dos hábitos e diferenças que os caracterizam. Os índios, hoje, têm assegurado por Lei o direito de manterem seus costumes, culturas, religiões, língua e tradições.
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    9 A REALIDADE
        Na prática, a FUNAI, talvez funcione como mais um dos "cabides" de empregos. É comum  assistirmos nos noticiários, denúncias de funcionários envolvidos em escândalos, coniventes com a violência praticada contra os índios, principalmente em questões de terras que envolvem garimpos, e seringais, na Região Norte do país.
    Existem algumas Organizações Não Governamentais (ONGs), que também se dedicam à defesa dos direitos e costumes dos povos indígenas, talvez, com mais eficiência do que a própria FUNAI.
        Várias entidades religiosas também estão envolvidas na tentativa de proteção aos povos indígenas, mas esta também é uma forma de violência, a violência cultural, pois busca a conversão dos índios à uma religião muito diferente da religião original dos seus ancestrais.
        As leis existem, porém não são cumpridas.  Em 28 de março de 1988, na cidade de Benjamin Constant, Amazonas, quatorze índios Ticuna, foram mortos, e vinte e tres ficaram feridos. Foram vítimas de um massacre, a mando de um madeireiro da região. Apesar de devidamente identificados, o mandante, e os autores do massacre (pistoleiros contratados), foram detidos, e logo soltos, até hoje nenhum foi punido, nem mesmo julgado. O crime ficou conhecido como "Massacre do Capacete", local onde ocorreu a chacina.
    "Nossas terras são invadidas, nossas terras são tomadas,  os nossos territórios são invadidos...
    Dizem que o Brasil foi descoberto,  o Brasil não foi descoberto não, Santo Padre,  o Brasil foi invadido e tomado dos indígenas do Brasil.  Essa é a verdadeira história..." (Marçal Tupã-i - julho de 1980).
    A voz aguda disparando frases contundentes por entre os dentes restantes, sustentados por um corpo franzino de um pouco mais de um metro e meio de altura,
     ecoou forte entre a platéia que rodeava o Papa João Paulo II, naquela tarde tropical do dia 01 de julho de 1980 em Manaus. Marçal de Souza Tupã-i, índio Guarani, não estava contando nenhuma novidade. Estava apenas  pedindo ao Brasil e ao mundo que deixasse de contar as mentiras referentes à história dos povos deste continente. Que não apenas fossem reconhecidos os erros cometidos, mas que se interrompesse essa prática de violência, discriminação e massacre dos povos indígenas, para se construir uma sociedade de respeito e diálogo igualitário, de reconhecimento das culturas e dos territórios indígenas, de convivência em paz e harmonia, sem subjugação e exploração. Certamente ele estava pedindo demais. Quatro anos depois foi assassinado em sua casa no Mato Grosso do Sul, defendendo um pedaço de terra para seu povo". (http://www.cimi.org.br /itaici99.htm)
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    10 CONCLUSÃO
        Quando o Brasil foi "descoberto" pelos portugueses, havia aqui cerca de 5 milhões de índios que tinham o domínio de todo o território brasileiro. Hoje, os nossos índios são aproximadamente 276.000 e suas terras não chegam a l % do território brasileiro. Se não se tomarem as medidas necessárias para proteger as reservas e as populações indígenas, estas poderão vir a desaparecer.
         A Nossa história registra as formas pelas quais os índios brasileiros foram sendo despojados de suas terras e, ao mesmo tempo, eliminados. Durante a colonização, a captura do índio foi um recurso constantemente usado para garantir mão-de-obra barata, ao lado da mão-de-obra dos escravos negros. As necessidades econômicas da sociedade branca dominante, foram dispersando as populações nativas e desagregando sua vida social, política e cultural. As terras dos índios foram sendo ocupadas pela cana-de-açúcar, pela pecuária, enfim, pela atividade agrícola e extrativa da sociedade dominante. Essa ocupação ocorreu primeiro nas regiões mais próximas ao litoral e, progressivamente, estendeu-se por todo o interior. A ocupação mais recente foi a da Amazônia, região onde se concentra a maior parte das populações nativas restantes.
    Hoje, a sociedade brasileira está mais consciente da gravidade da questão indígena. Por força de um trabalho permanente de estudo e apoio às culturas indígenas realizado por inúmeras entidades, ligadas principalmente às universidade e às igrejas, tem aumentado o interesse social pelos índios e pelos conflitos que ainda enfrentam. Esses conflitos são, quase sempre, conflitos de terras: de um lado, os índios
     reivindicam seu direito sobre as terras, sem as quais não podem sobreviver e crescer, e de outro, os grupos poderosos de latifundiários, criadores, madeireiros, mineradores, nacionais e multinacionais, também brigam pela posse da terra para desenvolverem suas atividades exploradoras.  O Estado não tem conseguido resolver esses conflitos, e muitas vezes cedeu aos interesses mais fortes dos grupos econômicos. Nos incidentes dos últimos anos, os esforços oficiais para apurar e punir os responsáveis pelo assassinato de índios não deram resultado. A demarcação das terras indígenas vem sendo feita muito devagar, essa demora ajuda a manter acesa a disputa pelas terras, na qual os índios quase sempre perdem.
         Os índios brasileiros, que também estão procurando organizar-se,  querem terra para sobreviver e respeito para conviver dignamente com a sociedade civilizada. São povos e culturas diferentes, parceiros menores e mais fracos da nossa sociedade, mas que têm exatamente os mesmos direitos básicos da maioria. Direito à vida, à sua cultura, ao seu trabalho, à sua terra. E é bom observarmos que esses direitos, além de fundamentais, são também direitos históricos dos povos indígenas, pois foram eles os primeiros ocupantes do território nacional.
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    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    AZANHA, Gilberto; VALADÃO, Virgínia Marcos. SENHORES DESTAS TERRAS. Os povos indígenas no Brasil: da colônia aos nossos dias.  São Paulo: Editora Atual.

    CARMO, Sonia I. S. do; COUTO, Eliane. HISTÓRIA passado e presente. São Paulo:      Atual Editora Limitada, 1994.

    HENRIQUES, Karyn N. R. A experiência dos Xokleng na cidade de Blumenau. Blumenau: PPGAS/UFSC, 1999.

    LOPES, Luis Roberto. HISTÓRIA DO BRASIL COLONIAL. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992.

    LUGON, C. A República comunista cristã dos guaranis 1610/1768. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra LTDA, 1968.

    MESGRAVIS, Laima. O Brasil nos primeiros séculos.  São Paulo: Contexto, 1994.

    MIRANDA, Fernando Marquez. OS ABORÍGENES DA AMÉRICA DO SUL. São Paulo:  Gráfica Editora Brasileira Ltda, 1954


    Paulo Romério R. Costa - História - PUCRS - Campus II
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